terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Geologia do maciço da Serra do Gerês e o jazigo filoniano dos Carris


Os caprichos da tectónica de placas fizeram com que no início do Carbonífero, há cerca de 350 milhões de anos (Ma), a Europa Ocidental se situasse numa zona de colisão de duas enormes massas continentais, a Gondwana (a Sul) e a Laurrússia (a Norte). Esse acontecimento gerou aquilo que hoje é conhecido como orogeno Varisco (também dito Hercínico), uma antiga cordilheira montanhosa, hoje totalmente irreconhecível do ponto de vista geomorfológico. A fase de colisão do orogeno, responsável por um aumento do espessamento da crusta na região, ficou registada nas rochas através de estruturas dúcteis geradas em diferentes fases de deformação (D1, D2 e D3). Posteriormente, o orogeno entrou em descompressão, exumação e adelgaçamento crustal, ficando sujeito a um regime de deformação frágil. Foi nessa altura que foram gerados, em profundidade, os granitos do maciço Peneda-Gerês, cristalizados a partir de um magma oriundo do manto terrestre, com forte contaminação de material da crusta (Neiva, 1993; Mendes e Dias, 2004). 

O maciço granítico da Serra do Gerês ocupa uma área de cerca de 40 x 20 km (repartida por Espanha e Portugal), e de acordo com Mendes e Dias (2004) compreende seis fácies de granitos de cor clara, com não mais do que 10,5 % de minerais escuros, das quais duas ocorrem na área dos Carris. A de maior representatividade é um granito de grão médio a grosseiro, porfiróide, biotítico e de tonalidade rosa claro, que foi datado por Mendes (2001) pelo método do U-Pb em 296 ± 2 Ma, sendo conhecido como granito do Gerês. A outra fácies, denominada granito dos Carris, é de grão fino, biotítica e levemente porfiróide, tendo sido datada por Dias et al. (1998) em 280 ± 5 Ma; ocupa uma área inferior a 5 % da área do granito de Gerês. O maciço é bordejado por um complexo granítico-migmatítico e por granitos, ambos síncronos com D3 (~310-320 Ma), por granitos instalados tardiamente em relação a D3 e por metassedimentos (xistos) de idade Silúrica.

Trata-se de um jazigo de quartzo intragranítico circunscrito a duas zonas deformadas (corredores de cisalhamento) verticais, de direcção aproximadamente N-S, separados 200 m. O de maior extensão, denominado na gíria mineira, filão Salto do Lobo, tem cerca de 1500 m de comprimento; o outro, denominado filão Paulino, tem cerca de 600 m. Cada um destes alinhamentos tem uma espessura média de 1-2 m e é composto por um conjunto de estreitos filões de quartzo, normalmente 6 a 8, preenchidos com quatro minerais com interesse económico, volframite [quimicamente (Fe,Mn)WO4, sendo o mineral mais abundante], scheelite (CaWO4), molibdenite (MoS2) e cassiterite (SnO2). O estudo metalogenético do jazigo foi encetado recentemente (Moura et al, 2011; Neiva et al, 2012, Moura et al., 2013) num estudo multidisciplinar centrado na geoquímica dos minerais, no estudo das inclusões fluidas e em métodos isotópicos (Re-Os para as datações e He-Ar para a proveniência do fluido mineralizante). Os autores identificaram outros 30 minerais no jazigo, dos quais se destacam a pirite e o berilo. A mineralização terá sido formada há cerca de 280 Ma precipitando a cerca de 7 km da superfície a partir de fluidos (H2O+Na++Cl-±CO2±N2) mineralizados a temperaturas de 350-270 ºC de diferente proveniência. A volframite e a cassiterite, depositadas inicialmente, terão resultado de W e de Sn de origem magmática-hidrotermal. Mais tarde terá havido a percolação de fluidos oriundos da superfície, responsáveis pela deposição de scheelite e dos sulfuretos. Tal como o magma que originou os granitos do Gerês também parte do fluido hidrotermal terá tido uma componente oriunda do manto terrestre.

Imagem: Secção da Carta Geológica do Parque Nacional da Peneda-Gerês onde são assinaladas as principais ocorrências de volfrâmio e molibdénio na Serra do Gerês (Fonte: Carta Geológica do Parque Nacional da Peneda-Gerês)

Texto adaptado de "Minas dos Carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês" (Rui C. Barbosa, Dezembro de 2013)

Caracterização da área das Minas dos Carris – a Serra do Gerês


Situadas no concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, as Minas dos Carris encontram-se junto à fronteira Galega em plena Serra do Gerês dentro dos limites administrativos do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) que foi criado pelo Decreto-Lei n.º 187/11 de 8 de Maio baseado no então regime de protecção da Natureza que havia sido estabelecido pelo Decreto-Lei n.º 9/70 de 19 de Junho. O PNPG foi uma das primeiras áreas protegidas em Portugal e até aos nossos dias mantém-se a única com o estatuto de Parque Nacional.

A Serra do Gerês está situada entre o Rio Homem e o Rio Cávado, constituindo uma cadeia granítica que se estende de nordeste para sudoeste, numa extensão de 35 quilómetros, entre a Fonte Fria e o Rio Caldo, atingindo os 1545 metros de altitude no Pico da Nevosa.

Há vestígios de características geomorfológicas de origem glaciar de baixa altitude, como blocos erráticos, moreias e pequenos circos glaciários (Lago Marinho e Couce). Tanto a flora como a fauna desta região são consideradas das mais ricas de Portugal. No Gerês, a vegetação está escalonada por três zonas de altitude: na primeira, até 1200 metros, predominam os castanheiros, azevinhos, medronheiros e pilriteiros; na segunda, de 1200 a 1400 metros, os teixos, vidoeiros e pinheiros nórdicos; na terceira, acima de 1400 metros, as árvores dão lugar a pequenos arbustos e ao zimbro que cobrem os cumes. Nesta serra abundam os jacintos, narcisos e os lírios. Ocasionalmente, aparecem planaltos com vegetação herbácea onde, de Maio a Setembro, pastam as vezeiras.

Texto adaptado de “Serra do Gerês” in Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2012. 

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CLXXXVIII) - Rio Homem


O Rio Homem, Serra do Gerês, em tons de fúria.

Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (16 a 24 de Janeiro)


A neve poderá voltar às Minas dos Carris a 19 e 20 de Janeiro.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Um outro olhar (LXXXII)


O Álvaro Rego Pinto visitou as Minas dos Carris a 6 de Janeiro de 2018 e teve a amabilidade de me ceder estas fotografias desta sua visita neste dia frio.

Se visitar as Minas dos Carris, envie as suas fotografias para assim se constituir uma base cronológica das ruínas nos píncaros serranos do Gerês.

Um agradecimento ao Álvaro pelo envio das fotos.










Fotografias © Álvaro Rego Pinto (Todos os direitos reservados)

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (13 a 21 de Janeiro)


Dias de neve e chuva, com abertas na próxima semana.

Paisagens da Peneda-Gerês (CLXXXVII) - Roca Negra em tons de Inverno


A Roca Negra, Serra do Gerês, parece surgir pequena nesta paisagem de Inverno onde o tempo pára e o silêncio preenche os espaços.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Paisagens da Peneda-Gerês (CLXXXVI) - Marco geodésico do Borrageiro


Os elementos são inclementes com o marco geodésico do Borrageiro, Serra do Gerês.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Trilhos seculares - De Leonte ao Borrageiro numa jornada invernal


Com o dia a começar mais tarde do que normal, pois o corpo pedia um descanso extra, decidi fazer a minha primeira jornada na Serra do Gerês em 2018 com uma caminhada entre a Portela de Leonte e o ponto mais alto do Minho, o Borrageiro.

Os caminhos já eram conhecidos, mas a perspectiva das paisagens de neve, tornam sempre estes lugares como algo de novo perante o nosso olhar. E a nave chegou já acima da Preza, mascarando a paisagem a partir da Chã da Fonte.

Tomando o velho e secular carreiro com a velha calçada serra acima, vai-se ganhando altitude, paisagem e largos horizontes à medida que o Pé de Cabril se afunda atrás de nós. O Gerês vai enchendo os pulmões e flectindo os seus músculos quando o céu se torna enorme em acima de nós. Livramo-nos do vale e ganhamos a imensidão ao passar a Chã do Carvalho. Logo acima, uma paragem já nos oferece o horizonte até Anamão, Serra da Peneda, os altos do Soajo e a largura da Serra Amarela salpicada de neve na Louriça.

A chegada ao Vidoal deixa o olhar percorrer as alturas do Pé de Medela e os detalhes realçados pela neve em Carris de Maceira. Com o céu de tons plumbeos, as vertentes dos Cântaros tornam-se quase fantasmagóricas, bem como os alcantilados de Lavadouros; ao fundo, a ribeira de mesmo nome corre, sonoramente. Para os lados do Borrageiro, a neve já domina a paisagem enquadrada pelo Outeiro Moço. Continuo o carreiro que o ladeará e que me leva à Preza, para o vislumbre do Vale de Teixeira e de um céu que varia do cinza para o rubor da luz do Sol reflectida pelas nuvens.




A partir daqui a neve salpica a paisagem e vai-se tornar mais constante à medida que me aproximo da Chã da Fonte. O caminhar torna-se mais cuidadoso, pois para além da neve, o gelo torna-se traiçoeiro e à espera do menor descuido. Passando a Chã da Fonte, viro para o elegante Arco do Borrageiro, ex-líbris por excelência do Gerez Thermal.

Daqui até ao alto do Borrageiro, a caminhada foi feita por entre paisagens carregadas de neve, nuvens que cobriam e descobriam a paisagem, e envolto num silêncio que só um dia de Inverno nos pode oferecer. Chegado ao alto a paisagem era imensa e a Serra do Gerês cobria-se de neve até aos domínios da Nevosa. 

Continuei em direcção à Lomba de Pau, fazendo um pequeno desvio para ver a Roca Negra e a Rocalva. O silêncio envolvia-me como um manto profundo e a paisagem tornava-se num quadro de tons de cinza com a nuvens a baixarem e a esconderem os píncaros serranos. Era um dia de lobo que se instalava naquelas paragens...

O regresso foi feito passando pela Chã da Gralheira e de novo pela Preza e pelo Vidoal.

Ficam algumas fotografias do dia e o restate pode ser visto aqui.


























Fotografias © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CLXXXV) - Arco do Borrageiro invernal


O magnífico Arco do Borrageiro, Serra do Gerês, em paisagem invernal.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)